Roxo e amarelo

Gostar, penso eu, é tão relativo quanto a Verdade, que de absoluta tem absolutamente nada!

Por exemplo, me fugiria ao entendimento tanto melindre em torno da duração do mês de agosto.

Tanto ele dura, quanto, enquanto dura, ouço uma piada atrás da outra acerca de sua longevidade e de como (sabe-se lá por que), por conseguinte, isso é supostamente ruim.

Porém, claro, isso não me foge ao entendimento. Eu disse que me fugiria.

Disse-o e repito porque sabemos quão vário é o homem e, no universo deste, seu vário universo do pensar.

Gostoso, penso eu, enfim, é sentir e viver Simplicidade.

E acho que sinto e vivo isso que ora digo, cada vez mais rasgadamente, à medida que a vida vem me afastando de tudo que é simples.

Aliás, acho que isso, aqui dentro, bem lá no fundo, é mais do que gostar. É questão de identidade. Coisa de identificação.

Mas, tudo bem. Eu consigo viver assim. A gente se adapta.

A criatura humana tem uma capacidade admirável de se adaptar aos torvelinhos que ela mesma cria. Ora se gira em falso, ora se roda a baiana...

Tenho me adaptado e, confesso, vivido bem vivendo bem bastante apesar de bastante mal em vista do incômodo com o mal ao redor.

Entendeu?

Apesar do exposto, há, como digo, um constante desgosto em relação a sobreviver em meio a tanto gosto não gosto.

Sinto que este não é meu lugar. Seja ele qual lugar for.

Sinto um desamparo.

Contudo, como volta e meia topo com outros desamparados como eu, me consolo.

Quanto ao mês de agosto... ah, que gosto! Foi a respeito e – em respeito – a ele que escrevi um dos meus mais simples poemas e que, portanto, figura entre os meus prediletos: “ainda nem é agosto/ e já estou agostar de tudo”. Um simples dístico.

Em agosto, aqui em nossa cidade, as ruas amarelam e arroxeiam em tons diversos sob as sombras de quaresmeiras tardias, jacarandás mimosos que fazem jus ao nome, ipês estupidamente radiantes, sibipirunas e outras árvores, arbustos e florinhas rasteiras das quais não sei os nomes, todavia, nem por isso me entontecem menos por ver.

Sinto que meus olhos são abençoados e minha alma surpreendida toda vez que vejo uma dessas magníficas criaturas que nascem ou resistem ao mês de agosto.

 

Como eu gosto! Como eu gosto!



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 14h59
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Oficina de Poesia

Faz tempo que eu pretendo escrever um texto desconexo. Aconteceu que me dei conta de que meu pensamento naturalmente o é. Então me libertei da pretensão para simplesmente escrevê-lo. Pode ser que não seja este o texto que pretendi. Mas será porque ele também se libertou.

...

Já fui muito romântica. Hoje não sou mais.

Cética compulsiva obsessiva kkkkk. Não tem graça.

Juro, no entanto, pelas musas que a coisa mais linda que já vi e ouvi na vida foi uma declaração de amor.

Claro que não foi.

A coisa mais linda na verdade foram duas coisas: os nascimentos dos meus filhos. E, por extensão, as vidas deles.

Ah, mas a tal declaração... uma tal em forma de poema... de poema todo prosa... me causou por extensão da extensão uma tal sensação que tal de: "minha vida é esse momento – este agora!”... ou de “minha vida começa e termina aqui!”... ou  de “eu existi até agora somente para ver e ouvir e digerir apenas isto!”... que tal???

...

Foi só por causa das rachaduras na calçada... Eu quis ouvir uma a uma as impressões que cada um tivera acerca dos desenhos das rachaduras na calçada. A fim de desenhar eu mesma as minhas próprias rachaduras, minhas impressões sobre suas impressões acerca das rachaduras na calçada. Onde não havia cerca.

...

O que menos importa, na verdade, não é a verdade dita, nem, portanto, se ela provém da realidade ou de arte que a expresse por meio de teatro, literatura ou o caramba a quatro, e sim o que isso, essa talvez verdade, diz – de verdade – dentro de mim.

...

Talvez, a primeira pergunta que a gente se devesse fazer fosse “o que eu penso de mim?” ao invés de “o que é que os outros vão pensar?”. Talvez. Daqui a pouco sei lá eu o que o outro eu talvez pensará.

...

À inexplicabilidade da vida em perspectiva da morte muito se explica no tocante ao nosso temor e nossas atitudes inexplicáveis em vista da não imortalidade. É óbvio. Quem viver verá.

...

O universo não se omite.

Ouvi o ruído (que a folha de papel emite) quando o poeta a virou enquanto lia seu poema.

O verso soou profundo.

Tinha métrica. Tinha rima. E me fez livre.

...

 

Por último pensei em deixar uma carta póstuma aos familiares desobrigando-os de tudo. Desisti. Isso seria obrigá-los a ler-me.



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 14h58
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Nós na multidão

“Eu não posso, infelizmente,/ ter de novo a temperança;/ se o pudesse, toda gente/ voltaria a ser criança.”.

Minha filha ia dançar...

O palco era coberto, mas, o público ficou debaixo da chuva a cântaros.

Ri – porque chorar não adiantava – quando o guarda-chuva da pessoa ao meu lado inverteu devido ao vento forte e, na sequência, despejou toda água acumulada em meu ouvido.

E já que o banho foi torrencial, ri torrencialmente também!

Tudo valeu a pena.

As meninas, entre as quais a minha, deram um show!!! Senti-me a mãe mais coruja da face da Terra.

Tudo valeu a pena. Embora (perdoe-me, mestre Pessoa) a alma seja, no mais das vezes, pequeniníssima.

Tem horas em que a alma ou é mesquinha ou se amesquinha.

Só sei o que eu sinto. E eu me sinto privilegiada neste momento. E é bem como me sentirei ainda enquanto me vier a cena da minha caçula brilhando ali feliz pela conquista, precisa nos movimentos ensaiados, sorridente pela nossa presença e expressiva qual naturalmente é.

A vida é feita mesmo! de momentos.

De momentos semelhantes a este de ora em que sobrevivo por causa daquele momento e de outros que fazem a vida ter valor.

Cada momento dá gás para outro que virá, pois, nem sempre o seguinte valerá tanto ou quanto o que o precedeu.

Nem sempre é sucesso o que sucede!

Fui arrebatada por uma dessas lembranças lá, no burburinho da espera, quando nós nos dávamos nós na multidão.

Havia muita gente no local, muita gente! Perguntávamo-nos, àquela altura, onde nossa caçula estaria? Se estaria tranquila? Se isso... se aquilo...

E entre os “ses” de repente ouvi um “mãe!!!”. Eu me virei, porque sabia que era ela. E era mesmo.

Entre zil berros iguaizinhos àquele, eu reconheci o que chamava por mim.

Foi idêntico ao que se passava quando, estando fosse lá onde fosse, um dos meus bebês chorava. Aquele choro, eu sabia, chamava por mim!

É verdade que com o tempo a gente perde muito do que supostamente conquistara. Porém, dezenove anos se passaram e a Mamãe Natureza ainda privilegia a mamãe aqui com o dom de reconhecer entre miríades de estrelas as minhas estrelas.

 

            “Os diamantes, a prata, o ouro:/ experimentos de Deus./ De osso e carne é o gran tesouro/ que, enfim, fez: os filhos meus!”...



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 14h58
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Temos que pegar!!!

Amigos reais decepcionam.

A gente decepciona e SE decepciona, porque somos falíveis, – ora, pokébolas!

Somos humanos: falha com a qual não dá para não conviver.

Ocorre que a falha de um humano convém ao outro.

Quando alguém se cansa, e este quer dizer àquele au revoir... vá com deus... ao deus-dará, a falha alheia convém sobremaneira.

É conveniente a mancada deste, pois, justificará a dispensa por parte daquele; inocentará o ferido; ferirá com próprio ferro aquele a quem restará gastar-se em explicações sequer ouvidas.

Convém tomar por podre o fruto quando não se quer ir à raiz da questão.

Partindo da raiz, chegamos à onda da hora: a caça em realidade aumentada, que levanta em paralelo a onda da caça à vida alheia, aos hábitos alheios, manias alheias, motivos alheios, alienação alheia.

Somos todos caçadores!

Todos temos que pegar!!!

Temos que pegar o outro em flagrante delito, porém, estratégica e especificamente o delito para o qual não tenhamos tendência.

Somos em tudo estrategistas. Uns melhores (até porque mais experientes) do que outros.

Temos todos que pegar e trazer à luz o que o outro faz no escuro, o que o torna obscuro, o quanto ele está/é em cima do muro...

Dessa pegação sou adepta. Todo mundo nega, embora pegue.

Até quando iremos negar?

Prosseguiremos sendo hipócritas? Negando que a falha da pessoa ao lado ameniza os nossos deslizes?

... ou que o cisco no olho do outro...

Admitamos que a maciça adesão à invasão de privacidade via redes sociais, por exemplo, excita, vicia, apetece... enquanto alegamos que a invasão das “ferinhas” choca.

Choca? Choca nada!

Caso de verdade estivéssemos propensos a choques, na prática faríamos mais do que ficar apenas na esfera dos debates.

A gente ridiculariza uns e outros que dão de cada passo seu uma satisfação pública: “acordei; bom dia!”; “almoçando com amigos – tudo de bom!”; “em um relacionamento sério com...”; “tédio”, mas bem que vira e mexe a gente atualiza o status.

Jogar o jogo da vida real, dia a dia, no tête à tête, não perdendo pontos/amigos virou sonho.

 

Pergunto-me se o jeito (menos indolor) não seria partir pra essa viagem. Partir pra ignorância, partir pra ficção e caçar umas amigáveis feras de mentirinha!



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 14h57
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A poltrona vermelha

            Tudo que existe ou inexiste o é ou não é não a propósito, mas, sim, a despeito de humanas convicções.

            Deus(es) e demais entidades como amor e felicidade coexistem noutro plano. Não neste físico.

            Num universo paralelo é possível crer, amar, ser feliz etc. e tal, talvez até em plenitude, haja vista, nesse suposto lugar, quem sabe, plenitude também haver.

Lá, nada disso é palavra. Lá, tudo provavelmente seja matéria impalpável, porém, palatável, digerível.

            Aqui são outros quinhentos! Aqui o Tempo urge! O Tempo, aqui, é o senhor de tudo e ruge!

            Por estas bandas de cá, pensando assim, tudo parece à toa, não é? Tudo soa inútil. Tudo é mera perda de tempo. Perda de tempo dentro do Tempo.

            Há contas a pagar a perder de vista. Há educação, trabalho, saúde etc. a administrar.

Paz não há.

Pensei haver. Julguei estar em paz, contudo, descobri que era apenas julgamento meu.

Julgamento. Outra coisa que, por aqui, embora somente palavra seja, como vive!!! Julgamento próprio. Julgamento alheio.

            Viver é administrar julgamentos e essas coisas todas outras as quais chamo de coisas, porque o ademais é igualmente palavra apenas.

Na prática, qualquer coisa que seja palavra não coaduna com a expectativa em vista dela.

            Sei que, de fato de fato mesmo, há aquela poltrona vermelha.

Não só ela existe como está encalhada ali, indevidamente, em devido trecho do córrego das Valquírias.

Sei que ela é um fato, ela existe, ela ali está, e me incomoda deveras! Incomoda-me vê-la. Incomoda-me, mesmo que a imagem, às vezes, sobretudo quando me flagro amalucada com o trânsito, soa deveras poética.

Todavia, incomoda-me infinita e definitivamente agora quando compreendo que a Poesia em minha vida é idêntica a essa poltrona: vermelho-sangue, e apodrece.

Dia desses, passando pelo mesmo local, não a vi. Não vi a tal poltrona.

Salvaram-na?

Salvaram o córrego?

Estiquei o olhar. E ei-la, a dita-cuja a mais e mais, aos pouquinhos, afundar, alguns metros à frente.

Sinto que também não estou salva da Poesia.

Nem ela de mim tampouco.

Azar o dela. Eu, por mim, sobrevivo.

Tenho profundo ódio dela.

Ela o que terá de mim?

 

Vai ver a ela basta ter-me, presa a si, objeto de troça sua, brinquedinho, menos que poltrona. 



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 14h56
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O episódio da borboleta

À porta, topei com a borboleta. Uma borboleta comum. Dessas pretas cravejadas de amarelo.

Esqueci-me de repente do que fora fazer ali. Agora me lembro: fora fazer coisa alguma. Abandonar-me... Fazer nada... e acabei nadando...

Nadei, letárgica, diante da visão. Eu, encostada no batente, enquanto no meu íntimo tudo fluía no diminuto turbilhonar daquelas asas...

Ridículas, minhas demais “eus” couberam com folga de maneira a viajarem também de carona.

Eu sei, eu sei: era apenas uma borboleta. Pode até ser. Acontece que aconteceu o voo!

Instantemente notei que as coisas não acontecem. Nós, isso sim, acontecemos.

Porque nesse episódio que se passou – o da borboleta que passou –, não se passou algo à minha frente. Tampouco algo à parte ocorreu.

Fui eu.  Eu, que, por meio dela, passei. Eu aconteci.

Era eu que acontecia ali. Eu me dissipava; resultava do compasso de tempo que eu via tomar distância, na medida em que o bater daquelas asas absorvia a delicadeza da luz que a transpassava.

Mas, me esgotei tão rapidamente que eu já não era eu.

Deduzi-me desimportante. E isso foi, apesar do pesar, didático.

Venho notando que a desimportância das coisas é de fato o que de mais importante se frui delas.

Senti-me apenas natural; entregue sem resistência à fatal constatação de que nada na verdade vale tanto quanto pesa.

Peso e medida são só distração. Tudo disfarce para empacotar e conter reais valores.

Por isso nada vale. Porque a gente desvaloriza as ocorrências à medida que as comprime.

A vida vale nada.

Agora evito pensar em tudo, pois, me vem à mente um universo intangível de complexidades... um baú de pesados tesouros inestimáveis... uma mala apinhada de desejos e consequentes exasperações.

Prefiro pensar em nada. Nadar menos raso, mergulhar mais fundo...

Nem toda vez volto com relíquias. Há, longe da superfície da gente, muito a resgatar, mas muita... muita coisa pra jogar fora.

Prefiro pensar em nada.

Imagino uma linha infinita limpa de horizonte... íntegra!... silenciosa... sem luz... sem qualquer ângulo ou visão do que na verdade não há... vazia... tão fuuunda que chega a não ter fundo.

 

Pensando em nada, morro dentro de mim mesma. É minha nova perspectiva de paz.



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 14h55
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Por que eu amo gatos?

Porque eles miam!

Porque, se falassem, e um gato fosse, por exemplo, um parente pedófilo... envelheceria cinicamente respondendo “Deus te abençoe” ao dócil pedido de “sua bênção” do outro gato já adulto.

Porque, caso gatos falassem, numa relação de amizade felina em que um traísse – por atos ou omissões – e depois descartasse o outro... ao um não doeria fazer o outro sentir-se um lixo, haja vista poder relaxar apenas dizendo-lhe “nunca quis te magoar”.

Eu amo gatos porque eles miam!

Não articulam; não têm palavras pra se desculpar, polir os fatos nem aliviar suas consciências.

Não sendo dotados dos privilégios da fala – nem da escrita – gatos não são polidamente covardes.

Não usam a multiface palavra, de maneira a mascarar com gentileza sua indiferença.

Olho no olho, ditas decentemente, palavras são cimento. Solidificam nuvens! Gravam na memória o que nasceu pra ser passagem.

Ao contrário, lançadas do modo fácil, palavras são borrachas! Apagam, riscam do mapa a trilha que palavras anteriores inscreveram a ferro e fogo.

Gatos são sinceros até em silêncio.

Muffin, meu gato, se aninha em mim, à noite, pra dormir. Embora me desacomode, não me pede desculpa, não diz nada. Mas, toca, no escuro, seu nariz no meu, de forma que eu o reconheça; não se esconde entre a gataria.

Quando me inquiro diante do espelho “por quê?”, se um dos meus gatos falasse, pronunciaria talvez “kkkkk”.

À moda da menina violentada ou da amiga jogada fora, não me resta subterfúgio senão dizer “ok”.

Não obstante as habilidades técnicas e sensíveis na elaboração da prosa e do verso, resta o aceite: “amém”; “ok”.

Meus gatos me olham nos olhos. Meu espelho idem.

Eles sabem que, em momentos como este, eu preferiria estar morta.

Eles me olham, e o farão enquanto por sorte ou azar eu continuar viva.

Talvez eles tenham esperança.

Eu já não.

A vida é violência atrás de violência.

É “Deus te abençoe” ali e “nunca quis te magoar” aqui.

Eu desesperancei... eu já não quero ouvir... eu já não quero viver coisa alguma!

Palavras inspiram a confiança de que ninguém é digno. Por isso eu amo gatos: porque eles miam.

 

A mim resta, enquanto houver palavras para tanto, com elas ensinar a meus filhos a jamais confiarem.



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 14h55
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