Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 17h52
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Introdução à introdução

Lia eu a introdução a uma obra de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, quando algo me invadiu: eu.

Em meio à introdução, o preâmbulo, algo me preambulou também; tocou-me, ou melhor, toquei-me, invadi-me, penetrei-me, que seja: introduzi-me.

Feri-me de mim mesma, algo assim.

Na verdade, nem sei bem o que foi que se passou. Mas, indolor, ah... isso não foi mesmo!

Ouvia eu, pois, a autora do tal texto dizer, lendo-a com suas palavras, o que, agora, com estas minhas pretensamente quero lhes explicar, a saber: que por horas ela teve o privilégio de segurar com as suas os papeis que antanho o múltiplo português segurara nas próprias mãos.

Pasmei. Parei. Invejei-a. Não pelo objeto. Não pela posse dele por um breve intervalo de tempo.

Invejei-a pelo toque. Sou o tipo de gente que carece de toque. Que literalmente morre pelo toque.

E eu quis tocar aquelas folhas, aqueles cadernos... Caramba, como eu quis!!!

Em seu trabalho de prefaciar, a estudiosa continuou: não obstante a árdua tarefa imposta à equipe que a acompanhara na empreitada, ela tinha a certeza de que o simples fato de cada um dos integrantes da mesma ter lido e relido aquelas linhas... era para cada qual, em si, o maior prêmio.

Caramba de novo – esse prêmio eu queria!

De repente, não mais que de repente, como diria nosso brasileiríssimo poetinha Vinicius, outra lança me veio tocar...

O livro, o exato livro em minhas mãos, no qual eu lia e relia o texto ao qual me refiro... fora presente de um saudoso, aliás, saudosíssimo amigo poeta, pensador, mas, sobretudo amigo...

Corri à cata de sua dedicatória. Ele não a fizera. No ímpeto, porém, de encontrá-la, esqueci por um instante que ela nada escrevera.

Pensei, entretanto, nele, às voltas na livraria, perambulando entre as estantes, folheando livro a livro demoradamente como apreciava fazer com palavra a palavra...

Caramba! Senti, então, uma inveja de mim!!!

Uma baita inveja de estar ali – eu – àquela hora, introduzindo os minutos na esteira das horas, estranhamente vazia por causa da tocante “saudade” de Pessoa que não conheci; repleta, outrossim, da especial pessoa que me privilegiara com a chance de sentir de si verdadeira saudade sem aspas. 



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 17h33
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Alvo de admiração

“Me deixe cavalgar nos seus desatinos/ Nas revoadas, redemoinhos/ Vento, ventania, me leve sem destino” (Álvaro / Bruno / Sheik / Miguel / Coelho / Beni).

Não confiro, dada a absoluta certeza: dalguma janela no restaurante a poucos metros de mim, alguém me admira.

Correção: observa-me.

Simplesmente porque estou na mira. E em virtude de, a essa hora, ser eu a única criatura viva em movimento à vista d’olhos. Eu sou, pois, o que chama a atenção.

Os carros, distantes daqui, pascem mecanicamente.

A avenida dorme, enquanto os semáforos à toa variam do vermelho ao verde.

Demora-se até o vento a passar, entediado. E, quanto o faz, em função da falta de galhos aos quais balançar... passa despercebido.

Alguns decerto teriam reparado nele remexendo as folhas...

Não o teriam de fato visto; é natural. Mas, sim, sua passagem vibrante e fresca.

Alguns com os olhos o priorizariam. É claro que sim.

Eu o teria feito!

Tresloucasse ele por mim, um ventinho que fosse, ah, eu o olharia!!!

Olharia, aliás, demoradamente.

Desejando que ficasse, a ele o pediria. Imploraria que ficasse, em paralelo à retirada sua. Em paralelo ao inevitável.

A despeito desse seu ímpeto, contudo, eu pediria de novo. Tentaria persuadi-lo, segurá-lo, adiar sua ida. E dessa vez eu gritaria “ficaaaaaaaaaaaaaaaa”...

Quem sabe ele ficasse.

No entanto, é bem mais provável que a essas tantas estivesse longe. Cuidando da vida.

Assim também eu, que, embora não seja vento, nem sequer chegue aos seus pés, nem, por conseguinte, seja um pé de vento, enfim... também eu...

Assim também eu vento.

Trafego em meio à invisibilidade dele, só não tão intocável quanto ele, dada a visão daquele provável alguém ali, numa daquelas janelas do restaurante a poucos metros, como eu dizia.

Visível e desimportante àqueles. Invisível mesmo que importante a esses.

Quem são aqueles?

Esses quem são?

Quem é quem?

Caramba! Será que será sempre desse jeito, toda e qualquer vez que ventar?

Que bobagem!!! Sempre esse turbilhão, esse redemoinho, essa intempérie de nada a lugar nenhum...

Sempre haveremos de pensar?

Até quando é sempre?

Há de passar.

Há de passar como o vento dessa ideia... e como outros que passaram antes dela...

 

“Lê, Lê, Lê, Lê, Lê, Lê, Lê”...



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 17h32
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Deixe(me) estar

“Chuva, carregue os males da minh’alma.../Apertados, seguros em sua palma;/arraste-os com sua fúria nas sarjetas.../Leve-os longe qual fossem uns cometas./ Ah, chuva, chova forte um pouco mais.../Ah, chuva, você tem cheiro de paz!/Rasgue os céus com seus raios e trovões;/conte-me sobre suas excursões./Caia gelada... fina por meu rosto;/ao meu pranto confunda e a ele esconda./Do meu corpo salgado lave o gosto./Bem enorme faz sua companhia;/faz-me descansar, faz com que eu esqueça/por que eu vim até aqui... por que sofria...”.

Pombas tomam chuva, enquanto dividem o espaço que a antena no espaço divide com outras antenas sobre prédios que tomam o espaço adiante.

Minha alma, no indeterminável espaço cá dentro, voa feito a pomba irrequieta que há dentro da pomba em repouso.

Sinto que, por instinto, essas aves são tão mais sábias que eu. Pombas, sabiás... mais do que eu e do que você, que esperamos por essa chuva durante a desértica largura de dias a fio; dias de sol a pino de fio a pavio.

Sim, pois, se a tomam as pombas, dela nos protegemos. Corremos aos guarda-chuvas.

Que vontade de dizer às crianças “carpe diem!; brinquem debaixo dela, enlameiem-se irresponsavelmente, antes que cresçam, e cresçam as responsabilidades”.

Ah... pudera tudo ser só o instante... Mas até ele é como a chuva: fugaz e passageiro.

Que pena: não dá pra ser insuportavelmente feliz; pra ter lotes adicionais de felicidade (esse produto inventado pra nos vender coisas). Mais agregar egoisticamente ao nosso quinhão de felicidade (esse rótulo segundo o qual se instituiu viver).

Ah, essa nossa vida, esse objeto sob belos padrões impostos e objetivos.

Deixe(me) estar!, ser coisa alguma. Somente estar!

Não “ser”. “Estar”.

Ninguém “é”, por conseguinte, feliz não pode ser. E ninguém será enquanto essa imposição do “ser” feliz, bem como essa obsessão por “ter” felicidade vingar. Isso é para coisas, não para gente.

Não sou. Estou.

Passo por aqui, ali e acolá. Sou este ser que obsessivamente busca “estar” feliz. E por isso às vezes de fato está.

Está, não importando se você (ou às vezes eu mesma) quer realmente que ele (eu) esteja.

Não sendo coisa alguma, portanto, estou alguma coisa um tanto assim feliz!



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 17h31
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