Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 19h22
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Manifesto nonsense

Não pelo objeto, mas, pelo objetivo.

Não pelo substantivo, e, sim, pela substância.

Pela desimportância das coisas, já que a vida não é uma coisa, e, em si, é só isso que importa.

Quando for pelos verbos, não seja pelo ser.

Seja pelo estar!, afinal, tudo é passageiro.

Que belo exemplo vivo é essa minha gata, de passagem pelos cômodos. De repente ela para e vomita...

Quanto a mim, foi devido ao burburinho de seu incômodo que despertei. Corro a socorrê-la debaixo dos olhares dos outros felinos.

Findo o socorro... feliz a felina de novo corre...

Perdido, todavia, o meu sono agora é passado.

Cansada, não luto. Passo um café...

Tomando-o, tomo consciência de que são quatro e trinta, e que esse horário, as quatro da matina e seus minutos, soam-me deveras familiares.

Dentro das quatro sinto-me em casa.

Ontem, foi o celular. Embora silenciado, vibrou tão decididamente que me arrancou da cama...

Era uma amiga sonâmbula enviando fotos. Detestei-me nelas, claro. Nunca fui fotogênica. Quem sabe até eu abomine mesmo minha figura.

Sorte, nessas horas que nos afiguram, saber que tudo passa. Desta feita, a imagem que de mim tenho também se dissolverá.

Eu passo. Amadureço. Refresco.

Aprende a própria imagem a obedecer-se, tolerando-se, digerindo-se.

Aprendo eu, à imagem dela, e, à medida que a imagino, repagino-me.

Talvez o melhor aprendizado seja perceber que nem tudo nessa vida, dentro, fora e em derredor de tudo que passa, tenha de fato importância.

E isso é tudo que ora importa. Não obstante a desimportância do que, em paralelo, se passe, o que, a essa altura, já me confunde.

Porém, para agravar a confusão – passageira oxalá – o jornaleiro passa...

Joga cá o objeto de sua responsabilidade, sem que, contudo, seja responsável pelo que dele vem dentro.

Rio sozinha. Dou-me conta de que segunda-feira sim, segunda-feira não, ele me joga.

Você me leva pra dentro...

Eu sou tão leve!

Leve como o pardal que despertou certa vez o ídolo Neruda, que, por sua vez, escreveu: “Acordaste-me ontem, amigo/e saí para te conhecer:/o universo cheirava a trevo,/a estrela aberta no orvalho:/quem eras e por que cantavas/tão intimamente sonoro,/tão inutilmente preciso?/(...)/apenas te vi, passageiro(...)”.



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 18h59
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