Roxo e amarelo

Gostar, penso eu, é tão relativo quanto a Verdade, que de absoluta tem absolutamente nada!

Por exemplo, me fugiria ao entendimento tanto melindre em torno da duração do mês de agosto.

Tanto ele dura, quanto, enquanto dura, ouço uma piada atrás da outra acerca de sua longevidade e de como (sabe-se lá por que), por conseguinte, isso é supostamente ruim.

Porém, claro, isso não me foge ao entendimento. Eu disse que me fugiria.

Disse-o e repito porque sabemos quão vário é o homem e, no universo deste, seu vário universo do pensar.

Gostoso, penso eu, enfim, é sentir e viver Simplicidade.

E acho que sinto e vivo isso que ora digo, cada vez mais rasgadamente, à medida que a vida vem me afastando de tudo que é simples.

Aliás, acho que isso, aqui dentro, bem lá no fundo, é mais do que gostar. É questão de identidade. Coisa de identificação.

Mas, tudo bem. Eu consigo viver assim. A gente se adapta.

A criatura humana tem uma capacidade admirável de se adaptar aos torvelinhos que ela mesma cria. Ora se gira em falso, ora se roda a baiana...

Tenho me adaptado e, confesso, vivido bem vivendo bem bastante apesar de bastante mal em vista do incômodo com o mal ao redor.

Entendeu?

Apesar do exposto, há, como digo, um constante desgosto em relação a sobreviver em meio a tanto gosto não gosto.

Sinto que este não é meu lugar. Seja ele qual lugar for.

Sinto um desamparo.

Contudo, como volta e meia topo com outros desamparados como eu, me consolo.

Quanto ao mês de agosto... ah, que gosto! Foi a respeito e – em respeito – a ele que escrevi um dos meus mais simples poemas e que, portanto, figura entre os meus prediletos: “ainda nem é agosto/ e já estou agostar de tudo”. Um simples dístico.

Em agosto, aqui em nossa cidade, as ruas amarelam e arroxeiam em tons diversos sob as sombras de quaresmeiras tardias, jacarandás mimosos que fazem jus ao nome, ipês estupidamente radiantes, sibipirunas e outras árvores, arbustos e florinhas rasteiras das quais não sei os nomes, todavia, nem por isso me entontecem menos por ver.

Sinto que meus olhos são abençoados e minha alma surpreendida toda vez que vejo uma dessas magníficas criaturas que nascem ou resistem ao mês de agosto.

 

Como eu gosto! Como eu gosto!



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 14h59
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Oficina de Poesia

Faz tempo que eu pretendo escrever um texto desconexo. Aconteceu que me dei conta de que meu pensamento naturalmente o é. Então me libertei da pretensão para simplesmente escrevê-lo. Pode ser que não seja este o texto que pretendi. Mas será porque ele também se libertou.

...

Já fui muito romântica. Hoje não sou mais.

Cética compulsiva obsessiva kkkkk. Não tem graça.

Juro, no entanto, pelas musas que a coisa mais linda que já vi e ouvi na vida foi uma declaração de amor.

Claro que não foi.

A coisa mais linda na verdade foram duas coisas: os nascimentos dos meus filhos. E, por extensão, as vidas deles.

Ah, mas a tal declaração... uma tal em forma de poema... de poema todo prosa... me causou por extensão da extensão uma tal sensação que tal de: "minha vida é esse momento – este agora!”... ou de “minha vida começa e termina aqui!”... ou  de “eu existi até agora somente para ver e ouvir e digerir apenas isto!”... que tal???

...

Foi só por causa das rachaduras na calçada... Eu quis ouvir uma a uma as impressões que cada um tivera acerca dos desenhos das rachaduras na calçada. A fim de desenhar eu mesma as minhas próprias rachaduras, minhas impressões sobre suas impressões acerca das rachaduras na calçada. Onde não havia cerca.

...

O que menos importa, na verdade, não é a verdade dita, nem, portanto, se ela provém da realidade ou de arte que a expresse por meio de teatro, literatura ou o caramba a quatro, e sim o que isso, essa talvez verdade, diz – de verdade – dentro de mim.

...

Talvez, a primeira pergunta que a gente se devesse fazer fosse “o que eu penso de mim?” ao invés de “o que é que os outros vão pensar?”. Talvez. Daqui a pouco sei lá eu o que o outro eu talvez pensará.

...

À inexplicabilidade da vida em perspectiva da morte muito se explica no tocante ao nosso temor e nossas atitudes inexplicáveis em vista da não imortalidade. É óbvio. Quem viver verá.

...

O universo não se omite.

Ouvi o ruído (que a folha de papel emite) quando o poeta a virou enquanto lia seu poema.

O verso soou profundo.

Tinha métrica. Tinha rima. E me fez livre.

...

 

Por último pensei em deixar uma carta póstuma aos familiares desobrigando-os de tudo. Desisti. Isso seria obrigá-los a ler-me.



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 14h58
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Nós na multidão

“Eu não posso, infelizmente,/ ter de novo a temperança;/ se o pudesse, toda gente/ voltaria a ser criança.”.

Minha filha ia dançar...

O palco era coberto, mas, o público ficou debaixo da chuva a cântaros.

Ri – porque chorar não adiantava – quando o guarda-chuva da pessoa ao meu lado inverteu devido ao vento forte e, na sequência, despejou toda água acumulada em meu ouvido.

E já que o banho foi torrencial, ri torrencialmente também!

Tudo valeu a pena.

As meninas, entre as quais a minha, deram um show!!! Senti-me a mãe mais coruja da face da Terra.

Tudo valeu a pena. Embora (perdoe-me, mestre Pessoa) a alma seja, no mais das vezes, pequeniníssima.

Tem horas em que a alma ou é mesquinha ou se amesquinha.

Só sei o que eu sinto. E eu me sinto privilegiada neste momento. E é bem como me sentirei ainda enquanto me vier a cena da minha caçula brilhando ali feliz pela conquista, precisa nos movimentos ensaiados, sorridente pela nossa presença e expressiva qual naturalmente é.

A vida é feita mesmo! de momentos.

De momentos semelhantes a este de ora em que sobrevivo por causa daquele momento e de outros que fazem a vida ter valor.

Cada momento dá gás para outro que virá, pois, nem sempre o seguinte valerá tanto ou quanto o que o precedeu.

Nem sempre é sucesso o que sucede!

Fui arrebatada por uma dessas lembranças lá, no burburinho da espera, quando nós nos dávamos nós na multidão.

Havia muita gente no local, muita gente! Perguntávamo-nos, àquela altura, onde nossa caçula estaria? Se estaria tranquila? Se isso... se aquilo...

E entre os “ses” de repente ouvi um “mãe!!!”. Eu me virei, porque sabia que era ela. E era mesmo.

Entre zil berros iguaizinhos àquele, eu reconheci o que chamava por mim.

Foi idêntico ao que se passava quando, estando fosse lá onde fosse, um dos meus bebês chorava. Aquele choro, eu sabia, chamava por mim!

É verdade que com o tempo a gente perde muito do que supostamente conquistara. Porém, dezenove anos se passaram e a Mamãe Natureza ainda privilegia a mamãe aqui com o dom de reconhecer entre miríades de estrelas as minhas estrelas.

 

            “Os diamantes, a prata, o ouro:/ experimentos de Deus./ De osso e carne é o gran tesouro/ que, enfim, fez: os filhos meus!”...



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 14h58
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Temos que pegar!!!

Amigos reais decepcionam.

A gente decepciona e SE decepciona, porque somos falíveis, – ora, pokébolas!

Somos humanos: falha com a qual não dá para não conviver.

Ocorre que a falha de um humano convém ao outro.

Quando alguém se cansa, e este quer dizer àquele au revoir... vá com deus... ao deus-dará, a falha alheia convém sobremaneira.

É conveniente a mancada deste, pois, justificará a dispensa por parte daquele; inocentará o ferido; ferirá com próprio ferro aquele a quem restará gastar-se em explicações sequer ouvidas.

Convém tomar por podre o fruto quando não se quer ir à raiz da questão.

Partindo da raiz, chegamos à onda da hora: a caça em realidade aumentada, que levanta em paralelo a onda da caça à vida alheia, aos hábitos alheios, manias alheias, motivos alheios, alienação alheia.

Somos todos caçadores!

Todos temos que pegar!!!

Temos que pegar o outro em flagrante delito, porém, estratégica e especificamente o delito para o qual não tenhamos tendência.

Somos em tudo estrategistas. Uns melhores (até porque mais experientes) do que outros.

Temos todos que pegar e trazer à luz o que o outro faz no escuro, o que o torna obscuro, o quanto ele está/é em cima do muro...

Dessa pegação sou adepta. Todo mundo nega, embora pegue.

Até quando iremos negar?

Prosseguiremos sendo hipócritas? Negando que a falha da pessoa ao lado ameniza os nossos deslizes?

... ou que o cisco no olho do outro...

Admitamos que a maciça adesão à invasão de privacidade via redes sociais, por exemplo, excita, vicia, apetece... enquanto alegamos que a invasão das “ferinhas” choca.

Choca? Choca nada!

Caso de verdade estivéssemos propensos a choques, na prática faríamos mais do que ficar apenas na esfera dos debates.

A gente ridiculariza uns e outros que dão de cada passo seu uma satisfação pública: “acordei; bom dia!”; “almoçando com amigos – tudo de bom!”; “em um relacionamento sério com...”; “tédio”, mas bem que vira e mexe a gente atualiza o status.

Jogar o jogo da vida real, dia a dia, no tête à tête, não perdendo pontos/amigos virou sonho.

 

Pergunto-me se o jeito (menos indolor) não seria partir pra essa viagem. Partir pra ignorância, partir pra ficção e caçar umas amigáveis feras de mentirinha!



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 14h57
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A poltrona vermelha

            Tudo que existe ou inexiste o é ou não é não a propósito, mas, sim, a despeito de humanas convicções.

            Deus(es) e demais entidades como amor e felicidade coexistem noutro plano. Não neste físico.

            Num universo paralelo é possível crer, amar, ser feliz etc. e tal, talvez até em plenitude, haja vista, nesse suposto lugar, quem sabe, plenitude também haver.

Lá, nada disso é palavra. Lá, tudo provavelmente seja matéria impalpável, porém, palatável, digerível.

            Aqui são outros quinhentos! Aqui o Tempo urge! O Tempo, aqui, é o senhor de tudo e ruge!

            Por estas bandas de cá, pensando assim, tudo parece à toa, não é? Tudo soa inútil. Tudo é mera perda de tempo. Perda de tempo dentro do Tempo.

            Há contas a pagar a perder de vista. Há educação, trabalho, saúde etc. a administrar.

Paz não há.

Pensei haver. Julguei estar em paz, contudo, descobri que era apenas julgamento meu.

Julgamento. Outra coisa que, por aqui, embora somente palavra seja, como vive!!! Julgamento próprio. Julgamento alheio.

            Viver é administrar julgamentos e essas coisas todas outras as quais chamo de coisas, porque o ademais é igualmente palavra apenas.

Na prática, qualquer coisa que seja palavra não coaduna com a expectativa em vista dela.

            Sei que, de fato de fato mesmo, há aquela poltrona vermelha.

Não só ela existe como está encalhada ali, indevidamente, em devido trecho do córrego das Valquírias.

Sei que ela é um fato, ela existe, ela ali está, e me incomoda deveras! Incomoda-me vê-la. Incomoda-me, mesmo que a imagem, às vezes, sobretudo quando me flagro amalucada com o trânsito, soa deveras poética.

Todavia, incomoda-me infinita e definitivamente agora quando compreendo que a Poesia em minha vida é idêntica a essa poltrona: vermelho-sangue, e apodrece.

Dia desses, passando pelo mesmo local, não a vi. Não vi a tal poltrona.

Salvaram-na?

Salvaram o córrego?

Estiquei o olhar. E ei-la, a dita-cuja a mais e mais, aos pouquinhos, afundar, alguns metros à frente.

Sinto que também não estou salva da Poesia.

Nem ela de mim tampouco.

Azar o dela. Eu, por mim, sobrevivo.

Tenho profundo ódio dela.

Ela o que terá de mim?

 

Vai ver a ela basta ter-me, presa a si, objeto de troça sua, brinquedinho, menos que poltrona. 



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 14h56
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O episódio da borboleta

À porta, topei com a borboleta. Uma borboleta comum. Dessas pretas cravejadas de amarelo.

Esqueci-me de repente do que fora fazer ali. Agora me lembro: fora fazer coisa alguma. Abandonar-me... Fazer nada... e acabei nadando...

Nadei, letárgica, diante da visão. Eu, encostada no batente, enquanto no meu íntimo tudo fluía no diminuto turbilhonar daquelas asas...

Ridículas, minhas demais “eus” couberam com folga de maneira a viajarem também de carona.

Eu sei, eu sei: era apenas uma borboleta. Pode até ser. Acontece que aconteceu o voo!

Instantemente notei que as coisas não acontecem. Nós, isso sim, acontecemos.

Porque nesse episódio que se passou – o da borboleta que passou –, não se passou algo à minha frente. Tampouco algo à parte ocorreu.

Fui eu.  Eu, que, por meio dela, passei. Eu aconteci.

Era eu que acontecia ali. Eu me dissipava; resultava do compasso de tempo que eu via tomar distância, na medida em que o bater daquelas asas absorvia a delicadeza da luz que a transpassava.

Mas, me esgotei tão rapidamente que eu já não era eu.

Deduzi-me desimportante. E isso foi, apesar do pesar, didático.

Venho notando que a desimportância das coisas é de fato o que de mais importante se frui delas.

Senti-me apenas natural; entregue sem resistência à fatal constatação de que nada na verdade vale tanto quanto pesa.

Peso e medida são só distração. Tudo disfarce para empacotar e conter reais valores.

Por isso nada vale. Porque a gente desvaloriza as ocorrências à medida que as comprime.

A vida vale nada.

Agora evito pensar em tudo, pois, me vem à mente um universo intangível de complexidades... um baú de pesados tesouros inestimáveis... uma mala apinhada de desejos e consequentes exasperações.

Prefiro pensar em nada. Nadar menos raso, mergulhar mais fundo...

Nem toda vez volto com relíquias. Há, longe da superfície da gente, muito a resgatar, mas muita... muita coisa pra jogar fora.

Prefiro pensar em nada.

Imagino uma linha infinita limpa de horizonte... íntegra!... silenciosa... sem luz... sem qualquer ângulo ou visão do que na verdade não há... vazia... tão fuuunda que chega a não ter fundo.

 

Pensando em nada, morro dentro de mim mesma. É minha nova perspectiva de paz.



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 14h55
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Por que eu amo gatos?

Porque eles miam!

Porque, se falassem, e um gato fosse, por exemplo, um parente pedófilo... envelheceria cinicamente respondendo “Deus te abençoe” ao dócil pedido de “sua bênção” do outro gato já adulto.

Porque, caso gatos falassem, numa relação de amizade felina em que um traísse – por atos ou omissões – e depois descartasse o outro... ao um não doeria fazer o outro sentir-se um lixo, haja vista poder relaxar apenas dizendo-lhe “nunca quis te magoar”.

Eu amo gatos porque eles miam!

Não articulam; não têm palavras pra se desculpar, polir os fatos nem aliviar suas consciências.

Não sendo dotados dos privilégios da fala – nem da escrita – gatos não são polidamente covardes.

Não usam a multiface palavra, de maneira a mascarar com gentileza sua indiferença.

Olho no olho, ditas decentemente, palavras são cimento. Solidificam nuvens! Gravam na memória o que nasceu pra ser passagem.

Ao contrário, lançadas do modo fácil, palavras são borrachas! Apagam, riscam do mapa a trilha que palavras anteriores inscreveram a ferro e fogo.

Gatos são sinceros até em silêncio.

Muffin, meu gato, se aninha em mim, à noite, pra dormir. Embora me desacomode, não me pede desculpa, não diz nada. Mas, toca, no escuro, seu nariz no meu, de forma que eu o reconheça; não se esconde entre a gataria.

Quando me inquiro diante do espelho “por quê?”, se um dos meus gatos falasse, pronunciaria talvez “kkkkk”.

À moda da menina violentada ou da amiga jogada fora, não me resta subterfúgio senão dizer “ok”.

Não obstante as habilidades técnicas e sensíveis na elaboração da prosa e do verso, resta o aceite: “amém”; “ok”.

Meus gatos me olham nos olhos. Meu espelho idem.

Eles sabem que, em momentos como este, eu preferiria estar morta.

Eles me olham, e o farão enquanto por sorte ou azar eu continuar viva.

Talvez eles tenham esperança.

Eu já não.

A vida é violência atrás de violência.

É “Deus te abençoe” ali e “nunca quis te magoar” aqui.

Eu desesperancei... eu já não quero ouvir... eu já não quero viver coisa alguma!

Palavras inspiram a confiança de que ninguém é digno. Por isso eu amo gatos: porque eles miam.

 

A mim resta, enquanto houver palavras para tanto, com elas ensinar a meus filhos a jamais confiarem.



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 14h55
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Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 17h52
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Introdução à introdução

Lia eu a introdução a uma obra de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, quando algo me invadiu: eu.

Em meio à introdução, o preâmbulo, algo me preambulou também; tocou-me, ou melhor, toquei-me, invadi-me, penetrei-me, que seja: introduzi-me.

Feri-me de mim mesma, algo assim.

Na verdade, nem sei bem o que foi que se passou. Mas, indolor, ah... isso não foi mesmo!

Ouvia eu, pois, a autora do tal texto dizer, lendo-a com suas palavras, o que, agora, com estas minhas pretensamente quero lhes explicar, a saber: que por horas ela teve o privilégio de segurar com as suas os papeis que antanho o múltiplo português segurara nas próprias mãos.

Pasmei. Parei. Invejei-a. Não pelo objeto. Não pela posse dele por um breve intervalo de tempo.

Invejei-a pelo toque. Sou o tipo de gente que carece de toque. Que literalmente morre pelo toque.

E eu quis tocar aquelas folhas, aqueles cadernos... Caramba, como eu quis!!!

Em seu trabalho de prefaciar, a estudiosa continuou: não obstante a árdua tarefa imposta à equipe que a acompanhara na empreitada, ela tinha a certeza de que o simples fato de cada um dos integrantes da mesma ter lido e relido aquelas linhas... era para cada qual, em si, o maior prêmio.

Caramba de novo – esse prêmio eu queria!

De repente, não mais que de repente, como diria nosso brasileiríssimo poetinha Vinicius, outra lança me veio tocar...

O livro, o exato livro em minhas mãos, no qual eu lia e relia o texto ao qual me refiro... fora presente de um saudoso, aliás, saudosíssimo amigo poeta, pensador, mas, sobretudo amigo...

Corri à cata de sua dedicatória. Ele não a fizera. No ímpeto, porém, de encontrá-la, esqueci por um instante que ela nada escrevera.

Pensei, entretanto, nele, às voltas na livraria, perambulando entre as estantes, folheando livro a livro demoradamente como apreciava fazer com palavra a palavra...

Caramba! Senti, então, uma inveja de mim!!!

Uma baita inveja de estar ali – eu – àquela hora, introduzindo os minutos na esteira das horas, estranhamente vazia por causa da tocante “saudade” de Pessoa que não conheci; repleta, outrossim, da especial pessoa que me privilegiara com a chance de sentir de si verdadeira saudade sem aspas. 



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 17h33
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Alvo de admiração

“Me deixe cavalgar nos seus desatinos/ Nas revoadas, redemoinhos/ Vento, ventania, me leve sem destino” (Álvaro / Bruno / Sheik / Miguel / Coelho / Beni).

Não confiro, dada a absoluta certeza: dalguma janela no restaurante a poucos metros de mim, alguém me admira.

Correção: observa-me.

Simplesmente porque estou na mira. E em virtude de, a essa hora, ser eu a única criatura viva em movimento à vista d’olhos. Eu sou, pois, o que chama a atenção.

Os carros, distantes daqui, pascem mecanicamente.

A avenida dorme, enquanto os semáforos à toa variam do vermelho ao verde.

Demora-se até o vento a passar, entediado. E, quanto o faz, em função da falta de galhos aos quais balançar... passa despercebido.

Alguns decerto teriam reparado nele remexendo as folhas...

Não o teriam de fato visto; é natural. Mas, sim, sua passagem vibrante e fresca.

Alguns com os olhos o priorizariam. É claro que sim.

Eu o teria feito!

Tresloucasse ele por mim, um ventinho que fosse, ah, eu o olharia!!!

Olharia, aliás, demoradamente.

Desejando que ficasse, a ele o pediria. Imploraria que ficasse, em paralelo à retirada sua. Em paralelo ao inevitável.

A despeito desse seu ímpeto, contudo, eu pediria de novo. Tentaria persuadi-lo, segurá-lo, adiar sua ida. E dessa vez eu gritaria “ficaaaaaaaaaaaaaaaa”...

Quem sabe ele ficasse.

No entanto, é bem mais provável que a essas tantas estivesse longe. Cuidando da vida.

Assim também eu, que, embora não seja vento, nem sequer chegue aos seus pés, nem, por conseguinte, seja um pé de vento, enfim... também eu...

Assim também eu vento.

Trafego em meio à invisibilidade dele, só não tão intocável quanto ele, dada a visão daquele provável alguém ali, numa daquelas janelas do restaurante a poucos metros, como eu dizia.

Visível e desimportante àqueles. Invisível mesmo que importante a esses.

Quem são aqueles?

Esses quem são?

Quem é quem?

Caramba! Será que será sempre desse jeito, toda e qualquer vez que ventar?

Que bobagem!!! Sempre esse turbilhão, esse redemoinho, essa intempérie de nada a lugar nenhum...

Sempre haveremos de pensar?

Até quando é sempre?

Há de passar.

Há de passar como o vento dessa ideia... e como outros que passaram antes dela...

 

“Lê, Lê, Lê, Lê, Lê, Lê, Lê”...



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 17h32
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Deixe(me) estar

“Chuva, carregue os males da minh’alma.../Apertados, seguros em sua palma;/arraste-os com sua fúria nas sarjetas.../Leve-os longe qual fossem uns cometas./ Ah, chuva, chova forte um pouco mais.../Ah, chuva, você tem cheiro de paz!/Rasgue os céus com seus raios e trovões;/conte-me sobre suas excursões./Caia gelada... fina por meu rosto;/ao meu pranto confunda e a ele esconda./Do meu corpo salgado lave o gosto./Bem enorme faz sua companhia;/faz-me descansar, faz com que eu esqueça/por que eu vim até aqui... por que sofria...”.

Pombas tomam chuva, enquanto dividem o espaço que a antena no espaço divide com outras antenas sobre prédios que tomam o espaço adiante.

Minha alma, no indeterminável espaço cá dentro, voa feito a pomba irrequieta que há dentro da pomba em repouso.

Sinto que, por instinto, essas aves são tão mais sábias que eu. Pombas, sabiás... mais do que eu e do que você, que esperamos por essa chuva durante a desértica largura de dias a fio; dias de sol a pino de fio a pavio.

Sim, pois, se a tomam as pombas, dela nos protegemos. Corremos aos guarda-chuvas.

Que vontade de dizer às crianças “carpe diem!; brinquem debaixo dela, enlameiem-se irresponsavelmente, antes que cresçam, e cresçam as responsabilidades”.

Ah... pudera tudo ser só o instante... Mas até ele é como a chuva: fugaz e passageiro.

Que pena: não dá pra ser insuportavelmente feliz; pra ter lotes adicionais de felicidade (esse produto inventado pra nos vender coisas). Mais agregar egoisticamente ao nosso quinhão de felicidade (esse rótulo segundo o qual se instituiu viver).

Ah, essa nossa vida, esse objeto sob belos padrões impostos e objetivos.

Deixe(me) estar!, ser coisa alguma. Somente estar!

Não “ser”. “Estar”.

Ninguém “é”, por conseguinte, feliz não pode ser. E ninguém será enquanto essa imposição do “ser” feliz, bem como essa obsessão por “ter” felicidade vingar. Isso é para coisas, não para gente.

Não sou. Estou.

Passo por aqui, ali e acolá. Sou este ser que obsessivamente busca “estar” feliz. E por isso às vezes de fato está.

Está, não importando se você (ou às vezes eu mesma) quer realmente que ele (eu) esteja.

Não sendo coisa alguma, portanto, estou alguma coisa um tanto assim feliz!



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 17h31
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Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 19h22
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Manifesto nonsense

Não pelo objeto, mas, pelo objetivo.

Não pelo substantivo, e, sim, pela substância.

Pela desimportância das coisas, já que a vida não é uma coisa, e, em si, é só isso que importa.

Quando for pelos verbos, não seja pelo ser.

Seja pelo estar!, afinal, tudo é passageiro.

Que belo exemplo vivo é essa minha gata, de passagem pelos cômodos. De repente ela para e vomita...

Quanto a mim, foi devido ao burburinho de seu incômodo que despertei. Corro a socorrê-la debaixo dos olhares dos outros felinos.

Findo o socorro... feliz a felina de novo corre...

Perdido, todavia, o meu sono agora é passado.

Cansada, não luto. Passo um café...

Tomando-o, tomo consciência de que são quatro e trinta, e que esse horário, as quatro da matina e seus minutos, soam-me deveras familiares.

Dentro das quatro sinto-me em casa.

Ontem, foi o celular. Embora silenciado, vibrou tão decididamente que me arrancou da cama...

Era uma amiga sonâmbula enviando fotos. Detestei-me nelas, claro. Nunca fui fotogênica. Quem sabe até eu abomine mesmo minha figura.

Sorte, nessas horas que nos afiguram, saber que tudo passa. Desta feita, a imagem que de mim tenho também se dissolverá.

Eu passo. Amadureço. Refresco.

Aprende a própria imagem a obedecer-se, tolerando-se, digerindo-se.

Aprendo eu, à imagem dela, e, à medida que a imagino, repagino-me.

Talvez o melhor aprendizado seja perceber que nem tudo nessa vida, dentro, fora e em derredor de tudo que passa, tenha de fato importância.

E isso é tudo que ora importa. Não obstante a desimportância do que, em paralelo, se passe, o que, a essa altura, já me confunde.

Porém, para agravar a confusão – passageira oxalá – o jornaleiro passa...

Joga cá o objeto de sua responsabilidade, sem que, contudo, seja responsável pelo que dele vem dentro.

Rio sozinha. Dou-me conta de que segunda-feira sim, segunda-feira não, ele me joga.

Você me leva pra dentro...

Eu sou tão leve!

Leve como o pardal que despertou certa vez o ídolo Neruda, que, por sua vez, escreveu: “Acordaste-me ontem, amigo/e saí para te conhecer:/o universo cheirava a trevo,/a estrela aberta no orvalho:/quem eras e por que cantavas/tão intimamente sonoro,/tão inutilmente preciso?/(...)/apenas te vi, passageiro(...)”.



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 18h59
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Por ruas, avenidas, etc.

Quando saí o sol estava alto.

Mesmo o girassol, saturado pelo calor, tombava a face.

Tudo fervia.

O asfalto era ambiente inóspito. E eu a ele, pelo maltrato, até parecia persona non grata.

Apesar disso era necessário que eu saísse.

...

De pele muito clara, sempre fugi de dar caras em dia ensolarado.

Aprendi, assim, desde menina a curtir menos uma boa praia do que um bom friozinho.

Se hoje me chamam de “cinza” não é à toa, nem reclamo do apelido. De fato nunca fui exatamente fúcsia.

...

Pé ante pé, cruzando ruas estreitas e avenidas largas, vias tranquilas e outras movimentadas, faz-se impossível não reparar, sobretudo caminhando todos os dias, o desentendimento entre motoristas e pedestres.

Isso sem entrar no mérito dos ciclistas.

Quando o lerem terá passado há tempo; para mim, entretanto, o susto de um quase atropelamento foi agorinha há pouco.

O culpado? Ninguém; imaginem. A culpa foi da seta. Dar seta pra quê? Ela que se dê, não é?

É... deixemos em paz os motoristas.

Enquanto caminhante, não posso fechar os olhos (nem a boca) aos meus companheiros (seja por hábito de exercício seja por necessidade de ir e vir a pé) apressados e aos folgados também: pedestres demais pensam ser a faixa que leva nosso nome um território onde pintar e bordar.

Canso de ver, em locais de fluxo intenso de automóveis, aqueles que vão se atirando confiantes a julgar que os que dirigem pararão para sua nobre pessoa atravessar.

Eu, que, por minha vez, olho antes para os dois lados, inclusive em rua de mão única, aguento a troça de amigos e desconhecidos.

Eu não ligo. Até que gosto da vida, quando dela não desgosto, é claro.

Não vou ainda sair por aí me jogando displicentemente.

Mas, digam a verdade: este artigo com modos de cartilha está ficando bem entediante, hein?

...

Abro ao acaso o primeiro livro com que trombo aqui: "Quem somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite,/Cada um a vida das linhas das vigias iluminadas/E cada um sabendo do outro só que há vida lá dentro e mais nada./Navios que se afastam ponteados de luz na treva,/Cada um indeciso diminuindo para cada lado do negro/Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe das águas.".

Salvos por Pessoa.

 

Salve Álvaro de Campos!



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 15h23
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O antes e o depois

Quatro e vinte exatamente.

Os dois ponteiros sobre o número quatro. Cada um deles vindo dizer coisas distintas, que juntas apontam para uma só.

E eu estou só. Isso nunca acaba bem.

...

Horas, minutos... tudo é conta do mesmo dia. E ao mesmo tempo, todo dia é um novo dia. Só que anoitece! Isso é que conta.

E nesse meio de tempo?

Seja no decorrer da tarde... seja agora em plena madrugada, esquecemos que tudo é dia. Este dia.

E já já esse tudo será nada. Será outro. E só o outro existirá. Por pouco.

Talvez isso se dê porque a toda coisinha carecemos nominar diferentemente. Forjamos assim dar-lhes distinção, dissimulamos organizá-las e organizarmo-nos.

Pode ser que seja por isso. Pode, todavia, ser que não. Pode ter sua função. Pode nem por isso ser infalível. Porém, hoje isso é irrelevante.

Hoje, inclusive, somente o hoje me sugere relevância.

Fato. Afinal, se amanhã posso não mais estar em pé, quanto mais ao pé de discuti-lo ou refleti-lo. Posso estar MOR-TA! Posso até morrer hoje ainda.

Ok. Tem muita gente que odeia falar em morte, porém não ama a vida a ponto de vivê-la.

Vai adiando... adiando... juntando tijolinhos pro céu enquanto cava em terra o particular inferninho cotidiano. E abre dele as janelas com vistas pros jardins dos outros, onde a grama é sempre mais verde e bla bla bla...

Tem muita gente também que não gosta sequer de ouvir falar nisso e naquilo – fingindo-se de morta! – a fim de melhor viver a vida.

– Nem me fale em doença!

– Nem me fale em pobreza!

– Injustiça? Nem me fale!

– Nem me fale...

– Nem me fale...

Ok; não falo. As coisas todas: as boas e as ruins, falam por si mesmas.

Voltemos cá ao hoje, que dizia eu é só o que me importa hoje.

Este hoje que quando você estiver lendo terá ido pras cucuias. Este hoje que terá valido a pena? Terá valido a ruguinha nova na face que não rejuvenesce a cada dia que passa? Terá sido cheio de graça? De graça?

De graça? Decerto tudo tem seu preço. E adivinhe quem paga?

Portanto...

Depois do portanto geralmente vem uma conclusão. Hoje, porém, o dia está mais para poréns.

É como se diz: "a cada dia basta o seu mal".

Por sorte se diz também que "não há mal que sempre dure".

 

A continuação? O amanhã dirá. "Quem viver verá".



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 10h32
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