Monólogo de dois

            Não faltou quem brincasse comigo após a primeira apresentação teatral de Prosa Poética: “nossa, eu não sabia que havia monólogo de dois”!!!

            Naturalmente, para mim, a autora, isto foi surpresa maior ainda, haja vista surgir à cena, junto do ator do qual eu tinha conhecimento – uma atriz.

Mas, além deste, ocorreram outros surpreendentes encantamentos, que fizeram valer a noite do público presente à recente cerimônia dos quarenta anos da Academia Feminina de Letras e Artes de Jundiaí.

O amigo ator (e diretor) me pregou uma peça, literalmente!!! Como lhe agradeço, mesmo eu tendo depois que responder a ironias.

 Não vamos, porém, ficar aqui elogiando o seu dom, o que à sombra de vaidades pode soar pedir também confete. Vamos, outrossim, falar de origens...

“Monólogo” vem de monos, expressão grega que remete a “um” somado a “logos” que sugere “ideia”.

Comum na esfera teatral, trata-se de discurso expresso por uma só pessoa, na qual aflora uma verdadeira catarse de pensares e sentires.

Esta expressão, porém, não deixa de ser uma forma de diálogo, posto que o protagonista, mesmo que falando lá com seus botões, dissocia-se. Então, são o eu e o interlocutor, ou o eu e o público.

Minuciando, existem dois padrões de monólogos: o “exterior”, se o personagem dirige-se a outrem, seja alguma figura ausente no próprio palco, seja à plateia, e o “interior” haja vista constituir-se de um dizer a si mesmo, gênero este chamado de “solilóquio”.

Ora, não bastasse Prosa Poética ter nascido texto sem pretensões outras, vi-o em forma de diálogo, e isto após ter sido anunciado como monólogo!, donde a meu ver aliás melhor se encaixaria no segundo gênero dos dois acima expostos.

Vi-o e, nisto, vi-me duas personas, duas faces, duas vidas, dois eus. E, em benefício de minha compreensão, o eram fisicamente: Mário Rebouças e Elis Braz, a cujos talentos me rendo, assumindo publicamente: apenas escrevi o texto.

O ademais foi o tudo.



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 09h40
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A cigarra e o brigadeiro

            Eu a chamara para, à janela, assistir como as gotas da chuva deslizavam pelas folhas do cajueiro.

            – E não é tudo igual? O jeito que todo pingo corre por qualquer folha?

            Claro que não, elucidei. Da textura da planta depende o ritmo da queda. E não só disso...

            – Tá tá tá. Vamos fazer brigadeiro de colher?

– Tá tá tá. Desarmei-me, pois, do interesse no assunto depende o ritmo da conversa. E não só disso...

Na cozinha, o celular camuflado sobre o mármore da pia, programado, sem gaguejar, repetia a mesma música e repetia e repetia e...

            Perguntei-lhe se o vocalista não explodiria, afinal, persistia feito cigarra determinada em monólogo determinante.

            É claro que eu não falei assim; não me entendam mal. Falo-lhes desta maneira, porque esse é nosso idioma, menos monossilábico, no meu caso, um tanto quanto verborrágico.

            Que eu sossegasse. Ele não estouraria não (porém meus miolos quase estouravam). E que eu soubesse: tratava-se da música tema do momento do beijo do casal daquele filme. Foi uma amiga que se apaixonou pela canção, descobriu na internet, mandou pra ela, que me contava naquela hora. E eu, então, estou contando a vocês.

            Estamos ou não estamos todos enrolados?

            De um rolo a outro, lá íamos, no capítulo seguinte deste moderníssimo e desajeitado conto de fadas doméstico, saboreando, grudadinhas, a iguaria grudenta a assistir “Enrolados”, uma, digamos assim: releitura da saga de Rapunzel.

            Lado a lado, vi-nos ali, de repente: a jovem heroína descobrindo seus poderes mágicos de seduções várias, e eu, aquela a quem ela tinha, agora, dificuldades em distinguir: se bruxa ou se outra coisa.

            “E não é tudo igual?”, ecoava a frase em meus sensibilíssimos ouvidos.

            Foi-se o tempo da inocência, eu pensava, ao passo que o doce descia amargando um pouquinho garganta abaixo, acumulando-se cintura acima.

            O que será que ela pensava? À pergunta que não calava, só o tempo, esse eterno vilão que não deixa sós as más madrastas responderá.

            Tudo isso se passando e o mais velho, na outra sala, rindo gostosa e alienadamente às passagens da comédia.

            Ele, penso desta vez, também já teve em mim uma rainha.



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 11h31
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Curiosidade e maravilha

“Graças! Graças – minh’alma é vária!/ E este meu espírito – eclético!/ Seja MPB... rock ou ária.../ a mim tudo soa imagético./ Um avião que no céu passa/ é giz que risca tela anil;/ se da chaminé sai fumaça/ é porque o carvão arde em cio./ Coas portas e janelas suas/ e altivo olhar de elevador/ vejo prédios comendo ruas,/ praças e canteiros em flor.../ Mas, a estes olhos que a terra há/ de, faminta, também comer.../ dou graças, graças – e oxalá/ possa ainda mais com eles ver.”.

            Eu acompanhava suas evoluções na guitarra, enquanto fazia as unhas de meus pés.

            Entre os riffs: “mãe, sabia que minhas unhas de pés e mãos direitos crescem mais rápido do que as do lado esquerdo?”.

            “Veja que curioso”, respondi: “uma informação dessas você esperou até o ensino médio pra receber”.

            Que ingenuazinha eu sou às vezes.

            “Aprendi isso no papelzinho do chiclets, mãe!”.

            E eu, então, acabo de aprender ainda mais essa!!!

            Que posso argumentar a meu favor, senão que minha vida é uma comédia?

            Se algo que se assemelha lhes acontece... conselho de quem experiência própria tem no currículo: é rir pra não chorar – mesmo.

            Minha filha diz que quando eu acordo tenho o topete do Elvis. Então tá. Sempre que me dá na telha, digo, no topete, vou despertá-la com um sonoro awop-bop-a-loo-mop alop-bam-boom.

            Não que eu tenha um humor invejável. Quem me conhece mais de perto, sabe de suas limitações. Lapido-o e ele a mim pra ver quem ganha.

            Se querem saber, dou a mão à palmatória. Sou tão abençoada que nada me resta que não seja crer no incrível, no misterioso, na bênção. Na maravilha, enfim, que é aprender sem cessar. Seja à custa do estudo minucioso de todas as coisas, sobretudo as pequeninas; do trabalho do corpo e da mente, porque ninguém é só uma ou outra coisa; da sagrada curiosidade, em cuja raiz a inocência milagrosamente sobrevive a tudo e a todos.

            Quanto às unhas, acrescentou minha amiga médica que nos destros é assim, nos canhotos é o contrário, haja vista o crescimento estar relacionado à irrigação, esta, por sua vez, maior num ou noutro lado devido ao uso constante no exercício de suas respectivas funções.



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 09h41
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Sentença de morte

            – Véi, sério, mano, tipo...

            E diante da minha cara de indignação, deram-me o benefício da legenda:

            – Isso foi uma sentença.

            Sim, disse eu, de morte! Da língua!

            – Tamu de férias, né.

            Em vista das circunstâncias, a única opção foi buscar e trazer à mesa o peixe. Por sorte (dele, inclusive) já estava morto, o que não o impediu de apresentar-se boquiaberto.

            Enfim, eu não era a única.

            – Posso abrir um refrigerante?

Engulo em seco, mas, depois, mergulho e lavo a alma num destoante copo de suco natural.

– ... é pra comemorar a última semana de férias, porque depois tudo volta ao normal e a gente tem que ser saudável de novo.

            Quando quase tudo parece perdido, arriscamos. Puxei da memória o vocabulário e gastei no idioma corrente: “véi, sério, mano, tipo”...

            Eles riram do meu desajeito.

            – Saúde não tira férias, gente. Tem que cuidar – falei.

            Algo como uma bomba veio explodir aqui, internamente, desafiando-me: “caramba, que chata você é, às vezes”.

            – Às vezes, defendi-me.

            Veio o flashback:

            “Ele não quer ler, Valquíria. De jeito nenhum. Diz que está de férias, e que leitura não tem diversão”.

            Ao ouvir a mãe que levara o filho a uma oficina de férias que tive o gosto de conduzir, provoquei o menino: e sabedoria lá tira férias, amigo? E quem foi que disse que ler não é divertido?

            Ao abraço que ganhei em resposta de seu filho, satisfeita com meu poder de persuasão, aquela mulher sorriu menos desesperada e um tanto mais prazerosamente.

            Ah... se ela me visse agora quando nossos papéis se assemelham... Como é desgastada a figura da mãe! No entanto, é inegável, que bênção é sê-lo.

            Meus filhos me enlouquecem para que eu perca a cabeça, mas nunca a fé.

            Fé em quê? Ou em quem? Perguntam-me vocês.

            Uso o último fôlego para, em minha defesa, dizer que isso, no mínimo, é material para outro artigo.

            Por ora, já me defendi demais da conta. É hora de baixar as armas, e, por que não, rezar: Deus ilumine os meus filhos/ além da primeira idade!/ Há muito eu saí dos trilhos,/ e é um vau a maturidade./ Mas... quem diria que, nela,/ eu seria este alfarrábio?/ Envelhecida e amarela/ a tinta escorre do lábio.”.



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 08h32
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Memórias que me fal(t)am

            Íamos a ver navios... Batendo um bom papo, meus amigos e eu viajávamos.

            O que nos levou a navegar? Carnaval.

Tratando-se de turma eclética, haja vista diferenças de idade, experiências e gostos, ancoramos em históricas marchinhas, mas também encalhamos em descartáveis “delícias”.

             Apercebi-me que entre uma e outra anedota, entre este e aquele enredo (de escolas de samba a contos de viagens) que eu era toda ouvidos.

            Pudera – não tinha o que contar absolutamente!

            Nunca desfilei numa avenida ou pulei (como dizem) folias carnavalescas.

Assim como também jamais viajei para aproveitar o feriado especificamente. As viagens que fiz ou faço, faço-as quando calha, quando agendas de trabalho, escola etc. se entendem. No carnaval? Hummm... não me lembro.

            Alguém narrou o quanto foi chocante notar que a filhinha era a única princesa no bailinho da escola (de ensino infantil mesmo, não de samba). Ticos de gente desfilando transparências, saltos altos... foi-se a infância!

            “Foi-se... é, foi-se, sim” repetíamos, consensuais, e: “muito, é, muito sensuais andam as fantasias (não só carnavalescas) desde a primeira idade”.

            Aqui e ali dávamos quase sem perceber uma pausa. Fazia-se, naturalmente, um breve, mas rompante silêncio.

            Penso que os outros, assim como eu, viam-se, de repente, julgadores, conservadores, mutiladores, cheios de pudores... com mil dores enfim.

            De repente, da mesma maneira que calávamos, lá íamos de novo: tantos comentários, e era “tanto riso, oh,, quanta alegria”, e éramos de fato os próprios palhaços (embora em menos de mil) no salão.

            Ríamos de nós mesmos. Eu deles e de suas hilariantes passagens por outros carnavais, uns na estrada, outros nos clubes ou nos blocos; eles de mim por não ter desta vez lorotas com que contribuir – logo eu!!!

            Vivendo e aprendendo. Que máxima!

Ano que vem narrarei a vez em que passei o carnaval ouvindo vantagens de bocas alheias. E, quando memórias próprias me faltarem noutra ocasião, trarei à tona estas, agora um tanto minhas, porque compartilhadas.

Aos incrédulos que me tentarem tirar a máscara, cantarei: “não me leve a mal: hoje é carnaval”.



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 10h18
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De fio a pavio

            Quanto tempo para perceber que minha mãe não contava somente quarenta e cinco anos!

            Tarde dessas, lidava eu para colocar a linha na agulha. Traçado foi o fio temporal, em cuja primeira ponta lá estava ela lidando. E pensar que eu achava que ela fazia graça!

Como é que não enxergava tão nitidamente? Como é que eu precisava sempre intervir e numa tacada só passar pelo buraco o fiozinho? Como, se ela era a mulher que a vida toda me socorreu, conduziu, sarou?

            Nenhum dos meus filhos estava comigo enquanto eu cosia, mas a memória de mim, pequena e dona de si. Tanto mais porque minhas crianças cosem-na aqui no fundo dia a dia, num retrato próprio, bordado, paralelo e saudoso, pendente noutro extremo do fio que puxou há pouco a conversa presente.

            Eu “dava uns pontinhos” no vestido de formatura da caçula, que quer ser bióloga, ou queria, pelo menos até outro dia.

            No instante seguinte, não, ela não me ajudava como antigamente fazia esta que lhes fala em socorro à mãe. No instante seguinte... ela, a minha pequena, vestida para a festa, era uma mulher feita! Ok, ok... uma mocinha!

            É que, se por um lado pra nós, pais, os filhos serão eternamente crianças, ainda que cresçam; por outro lado – como crescem!

Vai ver não vemos, porque a vista vai embaçando rendada e rendida pelo tempo que passa. Afinal, essa força estranha, o tempo, sabe-se, pois a canção anuncia: “não para e no entanto nunca envelhece”; nós é que passamos, tão eternos quanto é possível durarmos, o que alguém também já previu.

            Quem não sabe que a vida é a Efemeridade em pessoa? Outrossim, quem é que sabe, se sem parar a gente a desperdiça? Se a gente a deixa escorrer pelos dedos igualzinho a linhazinha, fininha e afrontosa, em frente da vista toldada.

            E, aproveitando o tecido presente, regresso ao retrós para não perder o fio da meada que se estendeu no parágrafo primeiro...

            Foi tarde dessas que me vi surpreender pertinho dos quarenta e cinco também. Quão escandalosa uma revelação pode ser!!!

            Quase lá, reflito se sobreviverei a tudo, e se chegarei aos pés de minha mãe que ainda cose divinamente.

Reflitam comigo: só o tempo saberá dizer.



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 10h29
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Meios para chegar ao fim

“Falaram-me os homens em humanidade,/ Mas eu nunca vi homens nem vi humanidade./ Vi vários homens assombrosamente diferentes entre si./ Cada um separado do outro por um espaço sem homens.” (Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, em Fragmentos).

Não há escapatória.

Seja qual for o meio em que nos encontremos, invariavelmente haverá alguém a, em determinado momento, consternado, concluir: é sempre assim.

Uns silenciosos porque cansados, outros ruidosos por teimosa resistência, dir-se-ão e/ou aos demais ao observar esta criatura recém-saída do torpe estado de deslumbre: demorou!!!

É um tal de ouvir de cá: em política? ih... é isso mesmo, só tem falsidade, o povo é usado e abusado, somos apenas degraus para eles chegarem ao topo; de lá: no círculo artístico... credo, é cada um por si e um contra o outro.

Escuta-se aqui: desde que me entendo por gente é desse jeito, nesse mundo, ninguém é de ninguém; e acolá: salve-se quem puder; é um deus nos acuda...

Se considerarmos que existem ainda, dentro dessas esferas, seus respectivos segmentos, donde novas consternações advêm, garantidas estão, por sua vez, tais pesarosas conclusões – e por todo sempre.

A verdade é que cada um sabe onde lhe aperta o calo.

De cada território pode falar com propriedade aquele que o pisa.

O que se rasga aos olhos até de quem se nega a admiti-lo é isto: personagem comum em quaisquer desses ambientes, não nos é surpresa – o homem! A verdade, por este novo (e mais antigo do que andar pra frente) ângulo, é que a verdade dói. Tanto dói que se prefere evitar encará-la.

A sociedade capitalista é assaz competitiva. Diremos isto a nós mesmos, conformando-nos.

A gente não quer, acontece que é matar ou morrer. Diremos, outrossim, a nos justificarmos.

Eu não queria, só que quando vi já estava agindo como todo mundo...

Por mim, por mim somente eu não teria aquela atitude, mas estava defendendo os meus... e por aí afora.

Ou seja, essa morte dos princípios virou meio de vida. Tudo é meio pra se chegar ao fim.

Piadistas de plantão querem crer que “no fim, tudo dá certo. Se ainda não deu certo, é porque ainda não chegou ao fim”.



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 17h05
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Debate recorrente

            “Oh! Bendito o que semeia/ Livros... livros à mão cheia.../ E manda o povo pensar!/ O livro caindo n'alma/ É germe — que faz a palma,/ É chuva — que faz o mar.” (Castro Alves)

Assunto dos mais debatidos diz respeito à sobrevida dos livros impressos.

            Uns tomam-lhe a defesa a ferro e fogo nas contendas, havendo, em contrapartida, quem os atire aos leões.

– “Antiecológicos”, gritam extremistas. Apaixonados debulham-se em lágrimas e as enxugam nas folhas, nisto expondo, inclusive, mais um atributo dos objetos em questão.

            Se, por um lado, é tormentoso o meio pelo qual se obtém a matéria-prima para a sua confecção, por outro, o mesmo deveria dar-se no que tange, por exemplo, a todo e qualquer uso exacerbado das fontes renováveis e não renováveis de energia. Delas usufruir não nos isenta de provocar impactos ambientais.

Se, por um extremo, falta espaço onde guardar tanto papel, noutra ponta, é demasiado oneroso e exige responsabilidade gigantesca o emprego de quaisquer recursos naturais.

Assim como carro e avião não serviriam de armas, não fosse essa a intenção do condutor, o livro igualmente. O vilão, amigos, não é este aglomerado de páginas. Nem comparsa ele é, mas, a preguiça de aderir a pequenos gestos cotidianos que, somados, tomariam vulto bastante para sobrepor, entre tantos, o monstro do lixo eletrônico, para com o qual nossa irresponsabilidade e descompromisso corroboram.

A solução em situações de conflito aponta inexoravelmente para o equilíbrio, sem o qual – esqueça!

Pessoalmente, eu não queria ter vivido para assistir tal dilema. Corrijo-me, usando e abusando da letra impressa por ora, cá, onde assinantes ou leitores eventuais mo leem, neste, como dizem por aí, glorioso veículo que hoje dá furos para amanhã embrulhar quinquilharias, sem contar que a tinta se apaga em algum tempo, e a página derrete sob uma chuvinha... Mas, volto. Volto e, oras... corrijo-me também defronte àquele que me perscruta os pensamentos perfilhados pelo cursor saltitante.

Ei-la, a correção: não queria ter vivido para assistir a moleza de pensar, fosse essa reflexão advinda de fonte impressa... fosse doutra.



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 10h00
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Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 20h22
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Uma experiência sensorial

            Tudo ali foi metáfora. Comprovadamente compreensível, pois, dada ao sentido.

            O garotinho, aos olhos do pai, fez surgir fogo com um toque de seu indicativo miudinho; a mulher construiu em casa e distribuiu caleidoscópios depois que num vislumbrou uma constelação; um rapaz distinguiu sua história na biografia da poetisa; inúmeros anotaram título da obra que ouviram na voz do próprio autor; alguém enviou este e-mail: “Entre as lápides e os sepulcros dos poemas, entrevi uns fantasmas de ovos e repolhos do antigo Mercado que havia naquele lugar na minha infância, quando a minha avó morava na esquina.”; as meninas do ballet, identificadas com o novo palco, dançavam entre as instalações; abrindo e fechando potes, amassando alhos fictícios, falando “de mentira” ao telefone, inclusive num de lata, muita gente redescobriu a infância ou projetou-se a um futuro ideal sem maldade...

Adultos e crianças apropriaram-se de chão, paredes, degraus do Centro das Artes, aqui em nossa Jundiaí, durante os meses deste ano em que se deu o Projeto “Galeria Literária”, por mim e por Renata Iacovino idealizado e executado, numa realização da Prefeitura Municipal, por meio da Secretaria de Cultura.

            O local foi apenas mote para se alcançar o verdadeiro espaço que, este sim, não se pode mensurar: o mais profundo do ser. Foi deste lugar que os visitantes saíram revigorados. Mais que isso, as pessoas saíram de si mesmas para encontrar o Outro, chocando-se e surpreendendo-se pelo caminho consigo mesmas.

             Subliminarmente às sensações provocadas, conhecimento era adquirido, o que denota, por conseguinte, que o exercício da racionalidade não foi negligenciado.

            Finda a jornada, pergunto-me se os autores de renome nacional, ao invés de protagonistas, não foram mediadores, estendendo-se em versos e frases-pontes, projetando-nos de nós até nós mesmos.

Perdoem-me se venho expô-lo cá, sem meias-palavras, correndo o risco de parecer pretensiosa, mas, a felicidade e a satisfação de ter participado disto tudo me obriga. 

Afinal, já somos íntimos; ademais... foi-se o tempo de nos deixarmos assombrar por riscos assumidos.



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 20h17
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Felicidade imprópria

            Definitivamente não sou consumista. E, volta e meia, algum episódio desagradável mais me desencoraja a me identificar com a coisa.

            Comprávamos lembrancinhas. Mal saímos da loja, minha filha me puxou a orelha:

            – Mãe, como você é feliiiz!!!

            Eu, infelizmente, entendera sua ironia. E, mais infelizmente ainda, ousei responder:

            – Que bom, meu anjinho.

            – Bom? Não sei se você percebeu, mas ninguém está nem aí pra isso!!!

            E eu não estou aqui pra lhes contar a sequência do episódio, nem como à minha maneira, heroicamente, tentei manter o pulso da situação. Narro-lhes, isto sim, o resumo da ópera: meu crime foi sorrir. Sorri ao pedir, ao escolher, ao pagar. Sorri ao me despedir. Minha pequena envergonhou-se, pois, segundo ela, a vendedora ficou impassível. “Ninguém está nem aí.”.

            Meu riso, de repente, tornou-se-me estúpido, inadequado.

            Fala-se muito nestes dias sobre gentileza. Sobre ser imperativo exercê-la. Fala-se.

            Muito se fala, inclusive, que a gente só se encontra no outro. Fala-se também.

            O que vale, no fim das contas, é o cada um por si.

            Quando sentimos bater no sangue do nosso sangue o eco deste presente bruto e, ele sim, imperativíssimo, que tristeza, amigos!

            Tornou-se impróprio ser feliz.

            Dói-me compreender que ela só quis me proteger, alertar-me acerca desse mundo insensível. Eu, porém, não queria ser dele protegida; quem dera contagiá-lo. Contagiá-la.

A gente sabe que educar é remar contra a maré, mas, caramba – como ela é brava! Às vezes a água quase entra e leva tudo.

            Visitávamos Foz do Iguaçu. Outros momentos em família ribombaram mais que as Cataratas...

            Minha sina é esta: escrever. Porque falar, falar eu falo demais. Encho a paciência. Quem tiver um tiquinho, que leia. E a maioria, fora, é claro, vocês, convictos companheiros, a gente sabe, não lê. Às favas a maioria também!

Ninguém está nem aí pro diálogo. Isso é coisa de antanho, mais até que a palavra “antanho”.

Vai ver eu sou de antigamente. Não é isso que dizem dos meus versos? Não é isso que vou sendo dia após dia diante do espelho? Não é isso que este meu sorriso idiota diz a quem pra esta cara de boba alegre olhe?



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 12h49
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Convite para o almoço

            Pouco antes, ele parara os carros com as mãos, qual policial de trânsito, alheio à bronca dos motoristas.

            Minutos depois, encontramo-nos, eu fazendo a manutenção, ele observando as instalações. Melhor dizendo, divertindo-se com uma delas especificamente.

            Ele puxava a bolinha prateada do pêndulo de Newton, despreocupado, agora, com quaisquer princípios inerentes ao aparelho. Cruzava os braços e, maravilhado, sorria ao ir e vir dela e das outras, enfileiradas.

            Encantei-me. Fui até ele; perguntei se imaginava o que o objeto de sua devoção tinha a ver com o texto fixado no painel. Eu já sabia, naturalmente, a resposta.

            Como o rapaz ficasse me investigando à espera de explicação ou apenas por simpatia, o que me pareceu mais provável, tão breve quanto simplesmente indiquei-lhe alguma intersecção.

            – É mesmo? Eu não sabia disso, não!

            Cada vez mais encantada com seu também encantamento, ousei pedir para fotografá-lo, ao que, prontamente, fez pose sem entanto tirar os olhos do brinquedo.

            Não obstante a exposição versar sobre Machado de Assis, naqueles momentos mágicos, senti-me o próprio Manoel de Barros, proseando com seu eternizado amigo Bernardo. O amigo em cujos ombros os passarinhos pousavam a um sinal de suas mãos, porque falar... falar ele não falava, não.

            Eu podia, já, inclusive, como o poeta, dizer que “um pássaro me árvore”. O moço à minha frente era o pássaro. Seus olhos voavam e consigo carregavam os meus em decolagem. Eu voava...

            Após nosso diálogo pleno de risos, quase desvestido de palavras, eu estava no céu.

            Quebrou-se o silêncio, nisto:

            – Vamo almoçá? No Bom Prato. Vamo no Bom Prato almoçá?

– Ih, eu tô enrolada aqui, falei. Mas, vá lá, bom almoço. A gente se vê.

– Vê, sim. Eu venho sempre. Venho quase todo dia. Eu acho bonito. Bonito demais isso aqui.

Que magnífica capacidade de olhar à volta e enxergar somente a beleza das coisas!

Ele saíra, sem perceber pisando a sombra de minha inquietude, sobrepondo-a com seu rastro tranquilo e enorme, enquanto eu tornava à lida, desta feita, porém feliz da vida por ver cumprir-se a palavra/poema: “para encontrar o azul eu uso pássaros”.



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 12h48
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Heróis e heróis

            Ultraseven, Ultraman... eu gostava deles. Por isso, compreendi adiante o fascínio de meus filhos. Pacientemente, acompanhei-os defronte a tela, junto às gerações de Power Rangers, até estes irem, como é comum a heróis da infância, se autodestruindo.

            Num passe de mágica tim tim tim... tim tim – adentrávamos o Castelo RÁ-TIM-BUM! Pra ser honesta, eu gostava mais que meus, então, pequenos, pois, não tardou para migrarem a outros canais, atrás de Super Poderosas e companhia ilimitada.

            Não posso negar – eu não perdia um episódio sequer do Super Choque, menino do bem e... quase de verdade. Eles sabiam disso, admiravam-no e, chegada a hora: “mãããe, seu herói vai começaaar”, gritavam lá da sala.

            Amamentei-os, tanta vez, sob a sonoridade de orquestras inteiras e, quando possível, marcadamente de violinos. Baixinho, soprei aos ouvidinhos de um e de outra: “vai tocar violino pra mamãe, né, meu anjo?”.

            Hoje, ouço-os, um na guitarra, outra no baixo, a ensaiar Metallica, Red Hot Chili Peppers, Green Day, Linkin Park...

            Há quem me diga: “ah, isso é só uma fase, viu, vai passar”, no intuito de supostamente me confortar, haja vista o estilo pelo qual se aventuram. Eu, ouçam bem, muito me agrado de sua escolha, afinal, se desde cedo tiveram acesso a repertório tão eclético, por que não haveriam de livremente fazê-la?

            Como eu poderia estranhar quando, passado o momento da amamentação, eu lavava pratos cantando Legião Urbana ou limpava os vidros desafinando Led Zeppelin?

            Era um tal de cantarolar “Os sonhos mais lindos sonhei./ De quimeras mil um castelo ergui...” ao colocá-los no berço, para, depois fazer com eles um coro: “We will, we will rock you! We will, we will rock you!”, esfregando-os debaixo do chuveiro...

“Nós queremos um herói pra defender/ E que busque a força dentro do seu coração/ Ele é a força pra nos defender/ Acreditamos numa nova era/ Em que o poder do amor vai sempre existir/ Ele é a força pra nos defender/ Vive a emoção e luta pela vida/ Acredita que o bem vai dominar”...

Seja pelo super ninja Jiraya, seja pela mãe que dá o peito, todos queremos, isto sim, é nos sentir protegidos.



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 10h39
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Sobre o natural

            Ontem, um estalo primaveril repercutiu em meu quintal, ao sutil pouso de pardaizinhos. Há quanto eu os não via!

            Não pensem que se ausentaram. Decerto passeavam por lá conforme o costume. Eu é que não estava, ocupada que venho com a lida diária, hoje em dia, diuturna.

Meus gatos, apesar de malemolentes sob o banho de sol e embriagados pelas mordiscadas nos temperos dos vasos, notaram-lhes os passos miudinhos. Apenas, todavia, notaram, preguiçosos que estavam.

“Têm o faro admirável estes meus companheiros!”, pensei. E juntar-se àquele, outro pensamento veio: “que companheirinhos fiéis tenho comigo!”.

Nunca mais me senti só, desde que vieram morar conosco. E vieram mesmo, cada um por sua vez, caindo como anjos dos céus das circunstâncias.

Acaso? Deixem disso, não me tentem convencer. Já descartei a ideia. Aliás, em acaso não acredito – piamente. E não sou lá, vocês sabem, adepta do ceticismo. Sou bastante crente. Por vezes... até demais.

Acredito em felicidade. Pura e simplesmente porque minha natureza humana, assim como as suas, procura alguma parte de si no que há de vir, sem saber se de fato virá, no desconhecido, no sobrenatural...

            Metade de mim quer saber o encoberto, assombrar-se, reduzir-se frente à magnitude do inominável.

            Já outra o quer tanto quanto, muito embora não o saiba. Precisa do esteio que é a matéria para escorá-la. Carece da face física das coisas, que, entanto, se coisas são é porque um tanto de indizível em si trazem. Porque até as coisas duras têm sua parcela de maleabilidade, seu avesso, sua raiz que se agarra, mas que necessita para sobreviver esticar-se também.

            Dito o acima, confesso crer no talento. Julguem-me à vontade, mas, a meu ver ambos são indissociáveis. Pois é preciso talento para ser feliz.

            E talento, ora, todo mundo tem. Seja lá para o que for, porém, se não levar à felicidade, é porque foi enterrado, mascarou-se.

            Nele crê-se com certa facilidade, porque sem cessar é possível distingui-lo em manifestações incontestes. Rasga-se aos olhos às vezes. Aí, nem é preciso muita fé para sabê-lo.

            Nem sempre, entretanto, tudo é posto à vista facilmente. C'est la vie.



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 11h48
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O menor dos enigmas

            À época da publicação, em 1865, Iracema conquistou!

Machado de Assis, que mais tarde escolheria o autor da referida obra para patrono de sua cadeira na ABL, teceu-lhe elogios: “(...) Há de viver este livro, tem em si as forças que resistem ao tempo, e dão plena fiança do futuro (...) o futuro chamar-lhe-á obra-prima.”.

            Poema em prosa? Sim, considerados por exemplo os atributos imagéticos e rítmicos.

            Vamos, porém, adiante do exposto. Além do nome da protagonista (anagrama da palavra América), o do amado, Martim, remete a Marte, deus da guerra greco-romano.

            Alegorizando o processo de colonização do Brasil e de toda a América por portugueses e europeus, a “Lenda do Ceará”, traz à tona circunstâncias históricas perfiladas ao lirismo poético-romântico na larga medida do talento de seu autor.

            Em beleza, melhor dotada que o Brasil, ao qual a narrativa a compara, a “virgem dos lábios de mel”, ergue os olhos “que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se. Diante dela e todo a contemplá-la, está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau espírito da floresta.”.

Mau espírito? Será, se ele “tem nas faces o branco das areias que bordam o mar; nos olhos o azul triste das águas profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo.”?.

Os labirintos se intercalam, num laborioso jogo proposto a leitores e personagens, e exatamente onde se encontram!

E a virgindade da índia, o que quererá indicar, senão a da floresta intocada?

Sob alucinações causadas pelo vinho de Tupã, Martim sonha possuir a jovem. E ela, enquanto ele imagina estar sonhando, “torna-se sua esposa”.

Que mestria de Alencar! Inconscientemente, porque inebriado, o jovem provoca a “destruição” da amada, segundo os costumes de seu povo. Ei-lo: o cenário da invasão do Brasil, donde se daria a destruição da floresta virgem americana. Um e outro fizeram-no por paixão? Sem maldade? Pode ser. Quem ler saberá. E, ao fazê-lo, constatará que consciência ecológica – assunto atualíssimo – está em voga não é de hoje.

Ademais, concluirá que em Iracema, romance de José de Alencar (1829-1877) o título, é talvez o menor entre os enigmas.



Escrito por Valquíria Gesqui Malagoli às 11h47
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